domingo, 11 de novembro de 2012

Ysani ,a semente de esperança




Por Ana Claudia Machado – Jornalista em 
por Ana Claudia Machado
*Reportagem publicada no livro Palavras de Luz – Retratos Espontâneos de Sustentação da Vida 
Ela é índia, filha da floresta, assim como a formosa Iracema, de José de Alencar. Traz no sangue traços de um passado que sempre esteve ligado à coragem em lutar pela terra, por sua terra.  Nascida numa pequena aldeia do Xingu, no Mato Grosso, aprendeu desde criança que “o ser humano necessita mais da Natureza do que a Natureza dele”. A jovem, de cabelos negros e tão compridos que chegam a disputar atenção com sua cintura, carrega na pele a cor de seus ancestrais. O rosto redondo ganha leveza com a franja que o deixa aparentemente infantil. O olhar, no entanto, indica que dentro dela há mais força do que em muitos que se consideram guerreiros. Assim é Ysani Kalapalo, a xinguana que aprendeu a falar português e fez questão de deixar um recado bem claro no texto de apresentação de seu blog: “Orgulho-me de ser índia e tenho cultura para exibir. Luto por meus ideais e nunca vou desistir”.
A batalha de Ysani começou cedo, quando ainda era criança. Ela e sua família chegaram a São Paulo em dezembro de 2002 e foram para o interior, rumo à pequena São Carlos, próxima a Araraquara e Ribeirão Preto. Era noite de Natal quando a família pisou pela primeira vez na cidade. Ysani lembra com graça que todos estavam em festa e, eles, completamente perdidos. A primeira ação, quase intuitiva, foi olhar ao redor e se ambientar diante do novo, sempre incerto.
Um amigo amparou os recém-chegados. O pai de Ysani, Kunué Kalapalo, conhecia um morador, que recebeu a família e a indicou para ficar num alojamento na Universidade Federal de São Carlos. O primeiro contato com a cultura branca ocorreu exatamente num local de estudos. Com apenas 12 anos,Ysani parecia já saber que o futuro seria traçado exatamente por esse caminho: a busca pelo conhecimento.
Foi apenas o começo. A família Kalapalo ficou uma semana acampada nas extensões da universidade. Um membro da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias foi até lá e ficou surpreso com a novidade. Ysani recorda que ele questionou qual era a causa da família estar no local. “Indígenas? O que eles estão fazendo por aqui?”, perguntava o bispo. Com um português ainda confuso, pois o pouco que sabia tinha aprendido sozinho, o pai de Ysani explicou o motivo de ter saído do Xingu. Ele disse ao bispo que tinha um propósito: conhecer melhor a cultura branca, colocar os filhos na escola para que eles pudessem aprender o português e depois voltar para levar esse conhecimento para o seu povo na aldeia e, assim, se proteger de possíveis explorações por parte dos karaíbas – os brancos.
O bispo se surpreendeu com aquela história e resolveu ajudá-los. Durante um ano, a igreja foi responsável pelo pagamento do aluguel da casa em que a família foi morar. A mobília e todas as contas de luz e água também foram pagas pela instituição. Depois, para ajudar nas despesas, Kunué resolveu montar uma banca e começou a vender os artesanatos que ele mesmo produzia. Sua mulher passou a trabalhar como empregada doméstica. Ysani, ainda adolescente, se arriscou em um emprego como babá, mas não ficou por muito tempo. Segundo ela, cuidar de duas crianças – um menino de 4 anos e uma menina de 8 – era muito desgastante e roubava seu tempo para frequentar a escola.
O primeiro ano de Ysani na cidade foi marcado pela primeira série do ensino fundamental. Ela deu início aos estudos em uma escola pública estadual. Era complicado lidar com os demais colegas de classe, mas Ysani se divertia porque os outros alunos a consideravam praticamente uma atração dentro da sala de aula. O lado lúdico das demais crianças tornava a presença de Ysani quase exótica. As diferenças, nessa época, viravam brincadeiras. Em diversas ocasiões, eles a ensinavam a falar palavrões e, sem ao menos saber o significado, Ysani repetia e todos caíam na gargalhada. A bela índia chamava atenção não só pela aparência, mas também porque, apesar de tudo, ia bem nas provas e se esforçava para acompanhar o ritmo das outras crianças. O final de 2003 chegou e, por ter tido um bom desempenho escolar, Ysani passou por uma avaliação e saltou da primeira para a quinta série.
Já na sexta série, a índia e seus irmãos ganharam bolsas integrais em um colégio particular, chamado Oca dos Curumins, graças à própria diretora, que também já havia visitado o Xingu e, ao encontrar a família em São Carlos, decidiu apoiar o interesse dos jovens pelos estudos. Ysani revela que, no início, era muito difícil assimilar tantas novidades ao mesmo tempo. Afinal, o desafio parecia desproporcional: ela tinha acabado de completar 15 anos e estava diante de uma cultura totalmente nova e uma língua bem diferente daquela que tinha aprendido a falar. Mesmo em meio às dificuldades, a índia não desistiu.
A nova escola não lhe deixou somente boas lembranças. Apesar de considerar essa etapa como importante, Ysani recorda que sofreu bastante nesse período. “Era muita humilhação! Nós éramos infinitamente pobres. Não tínhamos nada, nem roupas para vestir. Bicho do mato mesmo”, desabafa, apertando os dedos das mãos. A maioria dos estudantes fazia parte da classe média e, por isso, ela se sentia cada vez mais deslocada. O preconceito era tão grande que, muitas vezes, Ysani chegou a se esconder para fugir dos olhares que a discriminavam. Com o tempo, ela começou a perceber que a desigualdade social seria mais uma barreira a ser vencida. Que o abismo que separa os ricos dos pobres não é medido somente pela quantidade de dinheiro que as pessoas têm em suas contas bancárias, mas também pela falta de solidariedade entre elas. Todos chegavam à escola de carro. Ysani era a única que ia a pé. Suas roupas vestiam a humildade que há dentro dela. Com pouco dinheiro, seu pai preferia escolher as peças mais baratas. As outras eram todas de doação.
Além disso, a situação em sua casa estava cada vez mais complicada. Em tom melancólico e com um olhar abatido, Ysani relembra que a falta de dinheiro atrapalhava os planos da família. A condição era extremamente precária. Na época, um mal, que atinge diversas famílias brasileiras, passou a habitar a casa da índia: a fome. Assim como aqueles pesadelos sombrios que deixam qualquer pessoa apavorada quando acorda, com uma sensação de impotência, era a vida da família diante daquela condição que há muito faz parte da realidade. A diferença é que quando Ysani e seus irmãos abriam os olhos, a vida fazia questão de mostrar que aquilo não era apenas um sonho ruim.
*A reportagens completa pode ser lida no livro Palavras de Luz – Retratos Espontâneos de Sustentação da Vida, obra coletiva organizada pelo jornalista e pesquisador Edvaldo Pereira Lima. 
Reprodução: Blog Ana Claudia Machado.

Nenhum comentário:

Postar um comentário